quinta-feira, 1 de junho de 2017

The Shape of Voice (2016) | Review


Koe no Katachi (A Silent Voice ou The Shape of Voice) é um mangá de 2013 escrito por Yoshitoki Ooima e publicado pela revista Shounen Magazine. Foi finalizado em 2014 com 64 capítulos divididos por 7 volumes.

Sinopse
Koe no Katachi conta a história de Shouya, um garoto alegre e brincalhão, mas após uma menina surda chamada Shouko ser transferida para sua escola, ele começa a fazer brincadeiras com ela que se tornam bullying e vão piorando a cada dia, mas as coisas acabam virando contra ele... Passado anos, Shouya volta a encontrar Shouko para pedir desculpas e uma nova amizade nasce entre os dois.



Uma das maiores preocupações para o filme eram: "Será que vai adaptar todo o conteúdo do mangá?", "Como farão isso?", "Vai ficar bom?"... Apesar de ser um filme de duas horas, 64 capítulos é muita coisa para ser exprimida em um filme, e mesmo assim os produtores resolveram que fariam isto. Foi arriscado, no entanto, nas mãos de uma boa direção e um bom roteirista se tornou possível fazer sim, um bom filme.

Aproveitando a citação acima, irei começar comentando sobre a parte técnica até chegar no roteiro.

A direção aqui é da Naoko Yamada, que já trabalhou como diretora em K-On e Tamako Market, além de ter participado da staff de vários outros animes da Kyoto Animation. Seu trabalho é bastante eficiente, ela opta por usar ângulos em primeira pessoa usando a visão do Shouya em ambientes em que ele se sente recluso, como a escola, dessa forma ele está sempre de cabeça baixa olhando para o chão, evitando ver os rostos e principalmente os olhares das pessoas. A diretora também consegue extrair bem as expressões dos personagens tornando possível ler cada um sem que eles sejam expostos para explicar suas personalidades.


Uma cena bem interessante, onde (dentro do contexto da cena) a direção coloca os faíscas dos fogos de artifício caindo lentamente, lembrando assim uma chuva de meteoros trazendo o fim do mundo:


Aliás, a animação está absolutamente impecável aqui, há uma mistura perfeita entre o 2D e o CG ao ponto de quase nem notar a sua existência. Os personagens tem movimentos orgânicos e tudo é muito bem fluído, ressaltando os movimento das mãos na linguagem de sinal assim como os lábios e a expressões faciais, que para um anime que tem como um de seus temas a deficiência auditiva e a importância da comunicação visual para pessoas surdas, é de extrema relevância que fosse dada devida atenção à esses detalhes. Outro ponto muito bom está por conta do character do anime, é bem fiel à obra original, porém ficou mais bonito animado e o deixaram bem detalhado.


Se por um lado a parte visual do anime foi só acertos, o a trilha sonora... Também acertou bastante. Logo nos primeiros minutos do anime há uma música ao estilo rock in roll dos anos 70-80 que me fisgou para o anime logo de cara, apesar de infelizmente ser a única música cantada e tocada nesse estilo durante o filme, o restante do repertório que compõe a trilha sonora é muito emocionante; ela é sensível e delicada mantendo-se boa parte de forma discreta sem que sua melodia fique imperceptível. Entretanto, a OST ganha vigor de acordo com a importância dramática de cenas que exigem mais impacto, intensificando seus tons e tocando fortemente o público.

Há também os efeitos sonoros muito bem trabalhados que acabam chamando atenção por conta do capricho em cenas tão detalhadas.



Dentre as minhas surpresas com este filme, está a atuação de voz da seiyuu (dubladora) Saori Hayami, para quem não a conhece por nome, ela trabalhou em One Punch Man (na voz da Fubuki) Akagami no Shirayuki-hime (na voz da Shirayuki) e Oregairu (na voz da Yukino) entre muitos outros personagens conhecidos. Não sou muito fã do trabalho dela, mas ela é uma atriz competente e bastante versátil; e neste filme, ela se destaca bastante interpretando a Shouko que é uma personagem surda. A sua atuação acaba chamando bastante atenção pela verossimilhança e a dificuldade exigida.



Shouya confunde a palavra "suki" (eu amo) com "tsuki" (referente a lua).

Outra boa atuação é a de Miyu Irino que interpreta o protagonista, ele contém bastante o tom da voz transmitindo a sensação de inferioridade e mediocridade que seu personagem sente.

Já os demais seiyuus são na maioria competentes dentro de seus papeis, com exceção de Yuuki Kaneko que interpreta a personagem Ueno, nunca tinha visto outro papel da atriz e são poucos como seiyuu em animes. A sua atuação não chega a ser ruim, mas faltou personalidade e o gênio forte nos tons de voz que seu papel exigia, outro ponto negativo e o mais grave foi uma risada tão forçada em determinada cena que conseguiu estragá-la por inteiro.

Mas afinal, o roteiro é bom?

Particularmente, gosto de avaliar uma mídia independente de sua fonte original, mas Koe no Katachi é um de meus mangás favoritos e com isso eu questionei muito a escolha de adaptarem essa obra em um filme. Se um dos seus maiores pontos positivos é a construção de personagem de todo seu elenco, isto também se tornou a principal preocupação para com este filme. O resultado é que, o roteiro conseguiu implantar quase todos os personagens de maneira satisfatória; fora o casal principal que tem boa parte de seus conflitos e desenvolvimento preservados, há alguns com uma quantidade aceitável de informações que formam suas bases e motivos por serem de extrema importância para a relação dos principais. Por outro lado alguns sofreram vários cortes, e outros como Mashiba, se tornaram apenas um motivo para mover outro personagem e nada mais (no caso, ele é o motivo para Kawai agir de forma diferente com Shouya).

O problema dos cortes é que além de perder a qualidade no roteiro, a obra perde sustância em seus temas abordados deixando-os cada vez mais rasos. E obviante, comprimir todo o enredo da fonte original no filme, mesmo com muitos cortes, ainda deixa seus reflexos perceptíveis, que por sua vez podem ser incômodos. A diretora conseguiu estabelecer um ritmo narrativo com alguns truques que faz o anime não parecer corrido, mesmo sendo; porém há algumas transições abruptas de uma cena para outra que são desconfortantes. Já para fazer uma transição temporal de um período longo (como dias) foi usado algumas vezes um recurso em que consiste num compilado de várias cenas curtas do que os personagens fizeram durante o tempo que está sendo pulado. É um processo que funciona bem, no entanto é usado mais de uma vez, tornando-se um vício repetitivo na estrutura do filme.



Apesar dos pesares, o enredo de Koe no Katachi é muito bom e consegue se manter com o roteiro frisando mais o núcleo dos personagens principais. O primeiro ato é dividido em duas partes, começando por um flashback que mostra todo o conflito entre os personagens e estabelecendo uma base que passa a ser desenvolvida. E então entra a segunda parte onde temos o protagonista restabelecendo os laços com as pessoas de seu passado. Tudo aqui é essencial para seu seguimento e não há desvios na história ou algo colocado sem qualquer razão. 

Porém alguns problemas começam a surgir no segundo arco, são personagens demais e por mais importantes que sejam, não há tempo para explorar os motivos de suas essencialidades dentro do enredo, deixando-as muito implícitas. Eis que então, começa há ocorrer desvios na história que não vão chegar a lugar algum, fazendo com que o filme fique ainda mais comprimido. 


É um ato em que consiste na reconciliação do protagonista com os outros e consigo mesmo, havendo várias barreiras estabelecidas; e apesar dos desvios no foco, a história retoma sempre o rumo onde Shouya precisa enfrentar seus obstáculos e assim se segue até os conflitos se agravarem, partindo para quando a história centra-se em direção ao clímax.

Koe no Katachi não é uma história previsível, pode-se até dizer que sabe como ela acabará, mas todo o caminho percorrido é bem complicado e humano. Ao chegar no clímax temos uma reviravolta surpreendente que instiga nosso olhos para a forma como nossas ações podem causar sentimentos de culpa em outra pessoa. E com isso a construção de Shouka ganha muito peso a partir daqui. O terceiro ato se mantem focado nas consequências, na redenção e na superação dos personagens, mas infelizmente, voltando aquela questão da perda de valor que eles sofrem no roteiro, fica algo bem plástico com apenas o protagonista ganhando destaque. O final é lindo? Claro que é, porém, individual demais. 


Conclusão
Koe no Katachi não perde seu valor como entretenimento, é um filme visualmente lindo e emocionante, que consegue capturar a atenção do seu público sem deixá-lo se esvair. Mas é acelerado e deixa alguns personagens superficiais ou puras ferramentas no roteiro para estabelecer cada "porquê" na trama. O que poderia ser melhorado muito com 40 ou 30 minutos a mais de filme, sem prejudicar o ritmo.

Direção: 7.5/10
Roteiro: 6.5/10
Animação: 10/10
Trilha Sonora: 8/10
Entretenimento: 9/10

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